Início MUNDO Aproximação do papa com a China é “traição a Cristo”, diz cardeal
Aproximação do papa com a China é “traição a Cristo”, diz cardeal

Aproximação do papa com a China é “traição a Cristo”, diz cardeal

83
0

Crítico do regime, líder católico acredita que Francisco é “ingênuo”.

São mais de seis décadas de conflitos entre o governo da China e o Vaticano, por causa da nomeação de sacerdotes. Pequim não aceita que a Santa Sé faça as escolhas, pois isso interferiria na ‘soberania’. Trata-se de uma forma velada do partido comunista continuar exercendo o controle das igrejas.

A Associação Católica Patriótica é controlada pelo regime, e responsável por nomear os bispos no país, que não são reconhecidos pela cúpula da Igreja.

Agora, a sinalização feita por Francisco de uma aproximação está gerando críticas de quem conhece bem como funciona a repressão chinesa ao cristianismo. O cardeal Joseph Zen Kiun, bispo emérito de Hong Kong, insiste que uma aproximação entre as duas partes seria como “trair Jesus Cristo”.

Ferrenho crítico do regime na China continental, o cardeal Zen é um apoiador dos movimentos pró-democracia. Ele teme que o Papa Francisco ‘ceda’ ao regime comunista. “Talvez o Papa seja um pouco ingênuo, não tem o conhecimento de quem são os comunistas na China”, afirmou ao periódico inglês The Guardian.

Ouvido pelo Guardian, Francesco Sisci, jornalista que vive em Pequim e se especializou nas relações entre a China e a Santa Sé, admitiu que existe uma grande possibilidade de que um “acordo amplo” seja feito.

Quando foi entrevistado por Sisci a última vez, Francisco dizia que não se devia temer a ascensão econômica e política da China, sublinhando que “os homens e as civilizações tendem a comunicar”. Para o pontífice: “No mundo ocidental e na China, todos têm a capacidade e a força de manter o equilíbrio da paz”.

Perseguição não parou

Uma motivação para o Vaticano assinar um acordo de cooperação e passar a reconhecer os bispos apontados por Pequim seria o número relativamente pequeno de católicos no país. Há cerca de 10 milhões de católicos chineses, apenas um décimo do número total de cristãos no país.

A Santa Sé argumenta que, com o acordo proposto, os padres poderiam pregar com mais facilidade e abrir mais igrejas. Zen acredita que o argumento é falho. Trata-se de uma “falsa liberdade”, insiste o cardeal de Hong Kong, “É apenas a impressão de liberdade, não é uma liberdade verdadeira. O povo, mais cedo ou mais tarde, verá que os bispos são fantoches do governo e não realmente pastores do rebanho “.

Aos 84 anos, o bispo Zen, é conhecido por sua oposição às tentativas do partido comunista  limitar o papel da Igreja em Hong Kong. “O papa está acostumado com alguns comunistas que são perseguidos [na América Latina], e talvez não conheça os comunistas que já mataram centenas de milhares”. Se assinar um acordo com o regime que governa o país mais populoso da terra, os católicos representados pelo papa estariam “rendendo-nos, traindo-nos e traindo a Jesus Cristo”.

“Os bispos oficiais não estão realmente pregando o evangelho. Eles estão pregando a obediência à autoridade comunista”, adverte.

Quando persegue os cristãos, o governo chinês não faz distinção, tanto evangélicos quanto católicos sofrem com o mesmo tipo de cerceamento de liberdade.

Perseguição aumentou

A perseguição contra os cristãos na China ficou sete vezes maior na última década.  De acordo com o último relatório da missão China Aid, desde 2008 é possível ver um aumento constante nos casos de prisões de líderes, fechamento e demolições de templos.

De fato, as comunidades religiosas na China vivem o mais intenso ano de perseguição desde a Revolução Cultural (1966-1976), quando o país passou a adotar o sistema comunista.

Nos tempos de Mao Tsé-tung, o ateísmo foi um dos pilares para o estabelecimento da República Popular da China. Contudo, sua tentativa de exterminar toda forma de religião no país fracassou.

Ao longo das décadas seguintes, houve uma tentativa do Estado de assumir o controle das igrejas do país. A questão religiosa passou para segundo plano, enquanto o país mais populoso do mundo passava por profundas mudanças sociais e econômicas. Na década de 1970, Pequim anunciou que desistiria de tentar erradicar a religião organizada.

Com a ascensão do presidente, Xi Jinping, o discurso mudou. Segundo ele mesmo, a “gestão da religião é, em essência, a gestão das massas”. Atualmente, o país está entre os que mais perseguem os cristãos no mundo, segundo a missão Portas Abertas. Estima-se que 90% das cruzes de igrejas consideradas “não oficiais” tenham sido retiradas à força.

O relatório publicado pela China Aid afirma que embora budistas e muçulmanos sofram represálias, os cristãos estão sendo mais perseguidos, espancados e torturados do que nunca.

Fonte: Gospel Prime

(83)

Deixe seu Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *